quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Mãe (Crônica)





   Parei em frente ao portão. A casa era a mesma da minha infância, mas havia passado por várias reformas. Eu e meus nove irmãos havíamos passado ali grande parte de nossas vidas.
Olhei ao redor e as casas da rua também haviam mudado.  Relembrei momentos de pura diversão em uma época em que ainda podia-se brincar na rua. O dia estava nublado e uma chuva fina caia insistentemente. Não me importando com os pingos a me molhar continuei ali como em estado de êxtase a vislumbrar cada detalhe, como se pudesse furtar do passado pequenos recortes da infância.  Ao me encostar ao portão percebi que ele estava aberto, como se estivesse a minha espera. Fui entrando sentindo que a cada passo o meu coração acelerava mais e mais. Respirei fundo e prossegui. Aquele lugar estava muito bem cuidado. Logo na entrada avistei muitas plantas e uma infinidade de pequenos objetos decorativos que harmonizavam o ambiente.
             Eu admirava todo aquele zelo e sabia exatamente de quem eram as mãos responsáveis por aquilo tudo. Fui entrando devagar sem deixar que meus passos quebrassem a harmonia do ambiente.   A cozinha era ampla e um aroma de café invadia o ambiente. Aquela sensação de conforto e amparo voltou a me tomar.  Tudo era muito simples, mas extremamente aconchegante. Em cima da mesa de madeira estavam alguns materiais de costura. Lembrei-me das roupas que usávamos quando criança em momentos difíceis. Restos de tecidos acabavam virando camisas, calças e vestidos. Quanto tempo eu havia ficado longe e sentira muito por isso. Em um canto da mesa havia um recorte de papel que continha uma poesia.  Um simples recorte de papel, mas que alguém que se sensibilizou resolveu fixar no tempo o que sentiu e deixou que outros vissem e sentissem também.  Eu tinha muito dela em mim. Apesar do pouco estudo ela escrevia, lia e interpretava o que lia de uma maneira inigualável. O mundo das letras a encantava. Fui subindo uma escadinha cuja decoração me impressionou. A cada degrau havia na parede pequenos quadrados pintados assimetricamente  com alguns arabescos coloridos,  a cada passo eu encontrava traços da personalidade  daquela mulher que eu admirava tanto. Em meio as minhas surpreendentes descobertas ouvi alguns passos.
            “-Filha, é você? “ De repente me vi envolvida em um grande abraço.
           “-Sim, sou eu mãe.”
           Ficamos assim por um bom tempo, como se pudéssemos matar toda saudade em um único abraço.

Por Leila Bomfim
26/01/2013


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