segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Lavando palavrões





   Lavei uma palavra que recebia o título de palavrão. Esfreguei com sabão até que sumisse toda sujeira. A água que enxaguava as letras saia imunda. Você deve estar se perguntando por que lavar um palavrão sendo que eu poderia pegar outra palavra. Pois bem, vou te contar uma história. Às vezes, as palavras somem da minha mente, elas resolvem se amotinar e juntas desaparecem. Faz alguns meses a última aparição. Deveria ser proibida esta ausência repentina. Um desânimo abateu-se sobre mim, e as únicas palavras que apareciam, não eram tão dignas de serem publicadas. Resolvi então, lavá-las. Chega a ser engraçado, mas era a única solução, eu pegaria todos aqueles palavrões e comporia uma bela poesia; depois de lavá-los é claro. Atualmente o mundo anda meio desajustado, e toda a indignação que sinto, facilita a invasão destas palavras em minha mente. Entretanto, existem algumas palavras, que devido à ganância do ser humano, tornaram-se irrecuperáveis.  É o caso das palavras “mensalão” e “petrolão,” tão comumente utilizadas nas rodas de conversa em nosso país.  Quanta sujeira se esconde por trás destas palavras! Estas nem lavando a jato!

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Encontre-se


Somos seres perdidos em nós mesmos

A influência do meio em que vivemos arranca a nossa essência

Não venha me dizer que tem que ser assim, ou assado


O lance é, por que tem que ser assim, ou assado?


Filtrar o que chega aos nossos ouvidos, deve ser um exercício diário


Não se perca internalizando lixo, que só serve para nos desviar da justiça


A injustiça nasce desse descompasso


Verdade absoluta é burra, não existe, porque um ponto de vista é sempre a vista de um 

ponto


Vasculhe o seu interior, encontre-se na imensa colcha de retalhos que você costurou


E quando encontrar-se marque o local com fios de ouro, para que nunca se esqueça do 

seu real valor

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Uma visita muito especial


     Hoje amanheci com o meu coração transbordando de alegria. Acredito que este sentimento é reflexo da conversa que tive com alguém muito especial ontem à noite. Era natal, Ele apareceu e sentou-se ao meu lado. Olhei ao redor e percebi que ninguém mais notara sua presença. Todos estavam envolvidos em conversas animadas. As vozes preenchiam o ambiente e os risos eram fáceis. Assim como um quebra- cabeças montado, a família reunida estava completa. Havia algum tempo que meu coração andava apertado, e minha mente, outrora fértil e criativa, havia se tornado campo de indignação, decepção e desesperança. Muitas foram as vezes que, em minhas divagações, o questionei sobre tanta desumanidade, tantas guerras. A vida parecia não ter valor...e o porquê passou a ocupar demasiado espaço em meu coração. Agora Ele estava ali ao meu lado. Seu olhar parecia penetrar minha alma. De repente todas as minhas inquietações, pareciam não ter sentido, me sentia plena . Aquele olhar de infinita serenidade calou minhas palavras, elas eram desnecessárias. Ele colocou a mão sobre a minha, um arrepio percorreu todo o meu corpo, que foi tomado por um sentimento de total plenitude. Uma lágrima desceu pela minha face... fechei os olhos por alguns segundos , como quem quisesse recortar no tempo aquele exato momento e, quando os abri, Ele não estava mais lá...          
    Foi assim o meu encontro com Jesus...

2016 com muita música



                                                              

                                                                  Que em 2016...
Sua vida seja orquestrada por Deus e o repertório seja de belas melodias.
Que você tenha um milhão de amigos e seu cachorro sempre te sorria latindo.
Que você se preocupe menos com problemas pequenos e possa conhecer o tal lugar bonito pra viver em paz.
Que você aceite as pessoas como elas são, visto que, cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é.

Que as águas de março lavem e perfumem o seu caminho.
Que você ensine seu vizinho a cantar em uma bela manhã de setembro.
Que seu bem continue te dando água na boca, pois  o amor é fundamental e é impossível ser feliz sozinho.
Que Deus esteja bem pertinho a cada passo que você der, pois de nada adianta ir à igreja rezar e fazer tudo errado.
Liberte a sua risada mais gostosa e esse seu jeito de achar que a vida pode ser maravilhosa...
Sonhe sem medo, Deus dá asas faça seu voo.
Saiba que a vida tem sons que pra gente ouvir precisa aprender a começar de novo, portanto comece quantas vezes for necessário.
Desejo enfim, a paz de uma casa no campo, onde você possa plantar seus amigos, seus livros, e nada mais...

domingo, 20 de setembro de 2015

Bem-vinda Prima























Seja bem-vinda prima
Que você traga no vento o frescor da liberdade
Que traga em sua essência floral o elixir do amor
Venha sem cerimônia
Acalmar a humanidade    
Impregnando em todos os cantos
A alegria do desabrochar de mais uma estação
Venha colorir o cinza da desesperança
E perfumar a nossa caminhada  
Mostrando que sempre é tempo de recomeçar
Seja bem-vinda Primavera...


sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Luto




















Luto contra este sentimento negro que insiste em se instalar
Luto por este desamor que dilacera corações
Luto contra este nó na garganta causado por tanta injustiça que temos que engolir
Luto por esta criança de olhar triste,por este trabalhador sem esperança
Luto contra a falta de vergonha e imoralidade da política de nosso país
Luto para continuar sendo humana, e não me deixar contaminar por este lamaçal
Luto por valores que se encontram atualmente tão em desuso
Luto não só pela criança inerte na areia da praia, mas todas crianças vítimas deste caos
Sim, eu estou em luto! Pela ausência de humanidade e pela ganância que cega
A vida tem sido tão mal tratada, por isso eu luto...  


        




sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Sonhos roubados



Só queríamos viver em um país mais justo
Poder brincar em segurança com meu irmão 
Por que tiraram isso de nós?
Roubaram o nosso tempo nesta terra
Nossos sonhos foram dissolvidos no mar
Eu não queria ser o símbolo desta tragédia humanitária
Por que tanta guerra?
Só queríamos realizar nossos sonhos, ser felizes
A paz seria melhor para todos nós
A face dura do meu pai expressava a dor e angústia pela qual passava
Muitas vezes vi minha mãe chorando escondida
Só queríamos viver dignamente 
Estávamos ansiosos quando entramos naquele bote
Éramos fugitivos de uma guerra burra
Éramos vítimas da ignorância e da insensatez humana
Só queríamos paz
Só bastou que alguns se levantassem para que o barco virasse
Meu pai tentou nos segurar, porém escorregamos dos seus braços
Escorregamos para os braços da paz...



  

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Sentimentos têm cheiros?



   


    Os meus têm! Eles vivem me trasportando para


 lembranças agradáveis e às vezes me fazem chorar...Vou

 tentar descrever aqui o cheiros de alguns sentimentos. 

Quero ressaltar que isso é extremamente pessoal, pois 

cada ser possui a sua bagagem de essências olfativas...

     A liberdade teria o cheiro da maresia...

     A alegria teria o cheiro de uma tarde de verão...

     A esperança teria o cheiro da terra molhada após longa

 estiagem...

     A gratidão teria o cheiro de um esplendoroso girassol 

diante do sol...


     E o amor, o mais grandioso dos sentimentos, que cheiro 

teria?


     Ah o amor! O amor teria o cheiro de um rio caudaloso que  
corre para o mar...


     A paixão, prima do amor, teria o cheiro de uma chuva

 torrencial devastadora e passageira...



   As essências da vida tornam a nossa caminhada mais 

agradável. Mas é preciso ter sensibilidade para deixar-se 

invadir por elas, cujo único propósito é nos transportar para 

outra essência, a nossa essência interior...

                                                                           Leila Bomfim
                                                                      

quinta-feira, 28 de maio de 2015

     


      A fotografia é uma extensão da escrita. Enquanto em uma eu utilizo as palavras para passar a minha impressão do mundo, na outra eu imprimo na imagem esta mesma impressão. Ampliando minha visão complemento-me, reinvento-me a cada dia...Minhas palavras no momento estão escondidas na poesia de um doce olhar, no milagre presente em uma gestante, e na serenidade que uma nova vida traz. A busca pelo encantar e emocionar continua de uma maneira mais completa. Entrego-me de corpo e alma a cada trabalho que realizo porque busco a excelência. Sempre é tempo de aprender e se surpreender com os encantos que a vida pode nos proporcionar.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Olhos não têm cercas!


         Certa vez ouvi dois amigos dialogando sobre ciúmes, um dizia ao outro que sua namorada vivia desconfiada. Até mesmo uma simples olhada era motivo para que os tanques de guerra entrassem na zona de conflito inimigo.  O diálogo foi concluído com um famoso dito popular “olho não tem cerca”. Confesso que fiquei encasquetada com esta afirmação. Será mesmo que não temos controle sobre nossos olhos? Até que ponto uma olhadela pode ser considerada falta de respeito? 
Bom, diante do exposto, passei a analisar as tais “olhadelas” e pude constatar que às vezes elas não são assim tão inocentes. O problema não está só em olhar, mas em olhar, analisar e comentar. Estas três ações juntas formam um coquetel capaz de explodir a autoestima de qualquer pessoa, seja ela homem ou mulher. Primeiro a retina localiza o alvo, este passa por um filtro para medir o nível de aceitabilidade. Se o olheiro analisou e comentou é que o nível chegou ao topo. Uma amiga teve uma experiência constrangedora com a falta de cercas nos olhos, e olha que ela é de parar o trânsito. Ela estava na praia com o namorado, quando uma moçoila escultural entrou no campo de visão dele. A reação dele foi instantânea: olhou,analisou, comentou, e o pior ergueu o mastro de sua embarcação. Na hora ela entrou em transe, a ira que invadiu seu corpo era capaz de provocar um tsunami. Ela não pensou duas vezes, levou a mão no mastro dele apertou e falou:
      − Preste atenção no que sou capaz de fazer nesta praia.  
      Ela levantou-se tirou a parte de cima do biquíni e saiu desfilando toda segura de si. Os seios fartos e empinados estavam esplendorosos sentindo-se libertos. Os homens ovacionaram, enquanto as mulheres tentavam tapar os olhos de seus homens. Ela passou perto da gostosa e falou: “Pega para você!”
   Ela foi andando até a água deu um mergulho e por alguns minutos desapareceu de vista. Ressurgiu graciosamente depois sob os olhares de todos. Voltou pegou suas coisas, colocou uma saída de praia e foi embora. O namorado a seguiu desconcertado e durante meses implorou pela sua volta.
  Olhos não têm cercas, mas bom senso e respeito cabem bem em qualquer lugar.





domingo, 29 de março de 2015

Pé de não sei o quê





                                                                    
      Este meu jardim está dando o que falar. Outro dia foi um anjo que apareceu. Hoje foi um pé de “não sei o quê”.  Apelidei a plantinha com este nome por não saber o que era.  Ela tinha caule e folhas compridas, teve a audácia de despontar por sobre os arbustos rasteiros, tomando toda a visibilidade de todos que por ali passavam.  Deixei que a criatura tomasse forma, estava curiosa em saber até onde ia tal ousadia.  Notei que o tomateiro outrora verdejante, havia amarelado com a chegada repentina da nova hóspede imponente e,  desconfiado,  não deixou que suas ramas chegassem próximo da abusada, que se tornava a cada amanhecer, mais viçosa.  Eu passei a observá-la todos os dias no mesmo horário. Como era comprida e faceira! Suas folhas largas serviam de abrigo para alguns insetos que a escolheram para botar seus ovos.  Ela crescia proeminente, com seu caule flexível que balançava ao sabor do vento. Era primavera, eu tinha esperança de obter alguma pista do que vinha ser tal planta, mas não aconteceu. Eram só folhas e mais folhas.
       O outono chegou e a maioria das plantas já estavam ficando nuas. Olhei para o “pé de não sei o quê” e vi vários buquês repletos de botõezinhos verdes, enfim alguma pista, abri um largo sorriso com tal descoberta. Não tardou para os botões abrirem.  As pétalas eram de um vermelho intenso e o miolo era laranja vibrante.  Tudo normal, se não fosse um detalhe; as pétalas estavam para baixo enquanto o miolo livre como uma taça oferecia seu néctar aos visitantes que apareciam. Passei horas tentando entender aquela arquitetura do Criador. Aquelas pequenas florzinhas eram lindamente diferentes de todas as flores que eu já havia conhecido. Elas contrariavam toda e qualquer lógica floral. Além de audaciosa era estilosa. 
    Como se não bastasse, notei alguns bulbos compridos entre as folhagens. Ela continuava me surpreendendo. Esperei mais uma semana, e os bulbos abriram, e deles saíram um tufo de fios finos e sedosos que carregavam sementes que eram lançadas ao ar a cada rajada de vento. Elas passeariam sem rumo pelo ar até cair em solo fértil e cumprir sua missão. Porém, neste processo incerto, algumas seriam arrancadas rapidamente por serem confundidas com uma erva daninha. A paciência é uma virtude que pode nos proporcionar um poço de encantamentos. 
     Peguei uma pequena quantidade de sementes e assoprei. Pedi ao vento que as encaminhassem com segurança a um lugar de solo fértil, e que elas brotassem e fizessem outros jardineiros felizes. 

     Logo acima deixo alguns registros deste lindo recorte que roubei

do tempo e semeei aqui... 

                                                                               
                                                                  

sábado, 7 de março de 2015

Olá pessoal

Já saiu a resenha do meu livro Sementes ao Vento no blog da brookebells, confiram!

http://www.brookebells.com/2015/03/resenha-sementes-ao-vento-leila-bonfim.html 

http://www.brookebells.com/2015/03/resenha-sementes-ao-vento-leila-bonfim.html .

Um abraço a todos

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Doce parceria com o blog Booke Bells.


Oi pessoal estou fazendo uma parceria com o blog Booke Bells. Em breve resenha do Sementes ao Vento. Não percam!

http://brookeandbelle.blogspot.com.br

domingo, 25 de janeiro de 2015

Menina mulher




  Ei menina! É com você mesmo que quero falar.Não fuja, sei que você está aí escondida neste corpo de mulher. Sei que a vida te obrigou a crescer e que você até resistiu. Vi sua pressa ao recortar no tempo pedaços de emoções vividas. Queria aprisioná-los para sempre em uma imensa colcha de retalhos na memória. Costurando-os um pertinho do outro pareciam tão vívidos, tão eternamente eternos! Vi a sua indignação com o tempo, recriminando-o por engolir momentos tão preciosos. Eram encantamentos, cheiros, gostos, sons, benquerer e uma caixa enorme repleta de ternura. Não mereciam cair no poço do esquecimento.  Recorte a recorte delicadamente costurados com fios de gratidão. Costumava deitar-se sobre este manto nos teus sonhos. Deslumbrava-se com as descobertas, sentia o aroma das manhãs, colhia uma flor de intenso vermelho em uma tarde de primavera, sentia o palpitar do coração em um caloroso abraço. Porém, o senhor do destino  pregou-lhe uma peça, mostrou-lhe um universo repleto de novas tentações.Os primeiros raios de mulher surgiram e novas emoções passaram a povoar a sua mente.Lembra? O novo abriu-lhe outras portas e resistir foi difícil, não é mesmo? A menina cresceu! Mas, você criança ainda continua aí meio adormecida. Aflora às vezes quando o coração necessita do conforto das emoções costuradas. Mas você deveria aparecer mais. O mundo anda muito caótico. Vivemos em uma época na qual as pessoas não tem tempo para sentir o aroma e o paladar da vida. As descobertas não causam mais deslumbramentos. Por isto criança apareça! Brinque, sorria, seja leve. Saiba que a vida costura sua imensa colcha de retalhos  no dia a dia, e que cada etapa é a continuação de emoções anteriores. Não se preocupe em querer aprisioná-los. A menina e a mulher se completam...

   

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Tudo azul

Meu mundo se tornou azul. O cinza, que outrora encobria a alegria, se dissipou. Encontrei uma antiga chave que julgava perdida.Como e quando aconteceu, não sei dizer. 
Perdeu-se nas entrelinhas da vida.Confesso que nem senti falta. Do mesmo modo que sumiu,apareceu.
Segui meu caminho acreditando que as travas que surgiram eram meros coadjuvantes em minha jornada. Mas, hoje meu mundo se tornou mais azul. Tudo ficou muito claro. Abri meus olhos e consegui enxergar o que antes não via.Fechei a porta para as dores do passado. Abri a janela da alma para um novo despertar. Fechei pensamentos que me aprisionavam em uma caixa no subconsciente. Abri meu coração e retirei traças e teias, um hóspede inesperado surgiu. Fechei a solidão em uma caixa velha, ela não seria mais minha companheira. Abri um baú com um mundo de cores e fiz um arco íris na minha sacada. Criei um ambiente lindo só para receber os meus amigos. Lembrei de você! Entre...





quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Um pouco de mim


Certo dia me falaram que palavrões perdem o efeito em minha boca, que quando estou brigando me torno engraçada. Fiquei intrigada com estas declarações e comecei a buscar o porquê de tudo isso. Depois de muito pensar cheguei a conclusão  que, por mais irada que eu esteja, sou muito ponderada. Ainda carrego em meu olhar resquícios da menina que um dia fui. Quando olhos e boca se juntam em um sorriso, o mundo inteiro se abre. Com tanta doçura, é claro que o mais cabeludo dos palavrões se torne belo. Decididamente não nasci para o ódio e sim para o amor. Mas nem tudo na vida são flores, por isso em momentos mais críticos utilizo uma máscara. Dou folga para o amor e finjo ser uma doida desvairada. Talvez por isso, deva me parecer engraçada. O mundo atual tem exigido muito a presença desta doida desvairada. Ser doce em um mundo de tantas agruras está esvaindo a minha energia. Sigo equilibrando-me entre doçura e loucura para tentar sobreviver.  
                                                                                                           
         

Muito corpo para pouco conteúdo

      
      Estava eu no setor de frutas e legumes de um supermercado quando tudo aconteceu. Eu olhei para ele, ele olhou para mim e foi paixão a primeira vista. Um arrepio percorreu todo o meu corpo. Quanta elegância! Eu só tinha olhos para ele. Chamei a minha amiga, que estava próximo para contar a minha descoberta. Ela olhou e disse: “Normal!”. Quanta insensibilidade, ele poderia ser tudo, menos normal. Ela continuou o que estava fazendo, enquanto eu descansava meus olhos naquele colírio da natureza. Era a primeira vez que o via por ali. Deveria ser gringo, parecia meio deslocado.
     Aproximei-me com cuidado, ele permaneceu inerte aguardando a minha aproximação. Que cor linda! O cheiro então, nem se fala. Não resisti, e tocá-lo foi inevitável. Os meus dedos tatearam sua pele, seu cheiro me transportou para um longo passeio através dos sentidos. Naquele momento só existia eu e ele. De repente uma roda de carrinho tirou-me do torpor em que me encontrava. Uma dor lancinante me trouxe de volta à realidade.
    É claro que naquela tarde mesmo o levei para casa. Não via a hora de apertá-lo. Qual não foi a minha surpresa, quando percebi que ele tinha pouco conteúdo para muito corpo. Toda aquela pompa para nada! Quanto desperdício! Quanto mais eu apertava, menos caldo saia. Meus sentidos foram duramente enganados por um Limão Siciliano...                                                                       


terça-feira, 23 de dezembro de 2014

      Mais uma noite e nada. Geralmente era neste momento, quando o silêncio caia, que elas  surgiam. Uma a uma vinham como em cascata a me envolver. Já fazia uma semana a última aparição.  Vínhamos nos entendo bem até então mas, do mesmo modo que chegaram, foram embora. Saíram de mansinho sem pedir licença. Mudei o cenário, coloquei uma música tranquila, li Machado novamente e nada. Deveria ser proibida essa ausência repentina, pois já faziam parte de mim. Todos os dias naquele mesmo espaço eu as procurava.  De repente em meio ao devaneio uma resolveu se engraçar, apareceu como quem não quer nada. “Era”. Chamei outras e não obtive sucesso. Elas precisavam uma das outras para fazerem sentido. Elas haviam mudado a minha vida, quando juntas conversavam entre si e me surpreendia com tamanha harmonia.  Agora estava eu ali, seguindo o mesmo ritual para recebê-las e nada. Elas precisavam acabar o que haviam começado. Pensei por um momento o que Machado faria em um momento assim, será que ele havia passado por um martírio como este? 
     Um vazio abateu-se sobre mim.  A minha alma estava inquieta, o corpo descansava, mas a alma não.
      Desolada resolvi dormir.
     Já quase dormindo, elas me apareceram. − “Era... uma... bela ou chuvosa ... manhã ou tarde ... de... outono ou verão...”. Elas conversaram entre si e se organizaram: − “Era uma chuvosa tarde de verão...”. Levantei peguei meu laptop e comecei a digitá-las alegremente. Voltamos a nos entender enfim.



domingo, 23 de novembro de 2014

Brinquedo, alimento lúdico!





             Lá estava Bárbara na fila imensa que se formou em torno do muro da casa que fazia doação de cestas para famílias necessitadas Era Natal, ela observava atentamente cada uma daquelas famílias que aguardavam ansiosas por aquele saco transparente que continha mantimentos, roupas e brinquedos.Ela e sua família não eram diferentes, sua mãe e mais quatro irmãos aguardavam sua vez. As luzes do natal não estavam presentes naquelas faces endurecidas pela difícil realidade. Não almejavam ceias fartas com o sonhado peru assado, nem tampouco presentes embaixo de uma árvore de natal. Tudo era apenas cenas distantes vistas em comerciais de televisão.  Para as crianças  a felicidade parecia se esconder dentro daquela cesta.  Eram bolas, bonecas, carrinhos cujas cores vibrantes sobressaíam no saco transparente. Bárbara estava receosa, pois tinha mais quatro irmãos. A disputa pelos brinquedos sempre acabavam em brigas. Em um relance ela olhou para o rosto da mãe, procurou encontrar naquele face um traço de alegria . A vida difícil a tornara uma mulher dura. Era muito difícil ver um sorriso naqueles lábios, um afago então era coisa rara. Ela tinha um lenço vermelho na cabeça, preparado especialmente para receber a cesta. Bárbara se contagiava com a algazarra das crianças a cada saco recheado de brinquedos que saia, enquanto a mãe executava sempre os mesmos movimentos, passo após passo, sem ao menos olhar para os lados. Reparou que os outros adultos que estavam ali não eram diferentes, pareciam cabisbaixos.   
         Ela parou o devaneio em que se encontrava quando percebeu que sua vez de receber os donativos estava próxima. Seu coração acelerou, tentava ficar na ponta dos pés para visualizar melhor o que se passava por trás daquele pequeno portão, para isso enfiou-se por entre as pernas dos adultos a sua frente.O barulho e agitação das crianças atrapalhavam a circulação das pessoas que iriam retirar a cesta. Os adultos pareciam robôs apáticos seguindo uma sequencia de movimentos, enquanto as crianças se deslumbravam diante de toda aquela expectativa.  Bárbara e seus quatro irmãos agarraram ao portão e olharam para a quantidade de cestas dispostas naquele imenso jardim. Uma mulher pegou a senha e olhou para eles com um sorriso largo. Logo em seguida apareceu transportando a cesta em um carrinho de feira. Bárbara só tinha olhos para a bola colorida, para uma caixa grande que parecia ser um jogo de tabuleiro, um lindo urso de pelúcia e para alguns livros. A felicidade não cabia no peito. Ajudou a mãe a colocar a cesta na cabeça. Sua casa não ficava muito longe dali, algumas paradas seriam necessárias para recobrar o fôlego.  A mãe ia equilibrando a cesta na cabeça, os passos eram curtos e firmes. Bárbara e os irmãos iam pulando atrás tentando descobrir outros brinquedos entre os vãos dos alimentos que se dispunham dentro cesta.  
        Aqueles brinquedos iriam enganar o corpo e alimentar a alma no mundo do faz de conta.   

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Um anjo em meu jardim


Hoje pela manhã caiu em meu jardim um filhote de anjo
Ele se deliciava com o croc croc das folhas secas
Seu brilho e esplendor contrastavam com tudo ao redor...
Asas branquinhas como plumas pendiam de suas costas
Ele se encaixava perfeitamente àquela cena
Aí então, perguntei-me “O que faz um anjo em meu jardim?"
De repente ele se virou e me presenteou com um sorriso largo
Não foi um sorriso qualquer
Foi um sorriso divino, recheado de esperança
Iluminou tudo ao redor e aqueceu meu sofrido coração
Entendi então que eu não estava sozinha...

By Leila Bomfim